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A idade da frustração
por Eduardo Parise

           Brigadiano, era isto que sonhava ser. A Brigada Militar no RS equivale a Polícia Militar no restante do Brasil. E meu grande sonho infantil era este. Ainda guardo uma foto em que estou vestido de Brigadiano quando guri. Revirando algumas lembranças há muito extraviadas em algum lugar da memória encontrei algumas onde estou brincando de policial, perseguindo bandidos e aplicando multas de trânsito. Além de Brigadiano também queria ser barrigudo como o pai. Bom, ao menos um dos sonhos se realizou!

 

            O tempo passou e aos 15 anos fui trabalhar com informática, pois entendia um pouco de tanto fuçar no PC de casa. Aos 17, desnorteado, fiz dois vestibulares para odontologia e um para engenharia no ITA, além do exame de admissão da Escola Preparatória dos Cadetes do Exército (EsPCEx) que era a porta de entrada para a AMAN (Academia Militar dos Agulhas Negras). Felizmente ou não, reprovei com louvor em todos esses exames. Restou-me ficar mais um ano trabalhando na escola de informática e em paralelo fazendo cursinho pré-vestibular a fim de tentar a sorte no próximo ano.

 

            A esta altura, o antigo sonho de ser Brigadiano já havia se esfumaçado na lembrança. Estava descobrindo o mundo, possibilidades e caminhos novos surgiam o tempo todo, recebia uma enxurrada de informação que serviria de alicerce para a escolha do meu futuro. Talvez por levar jeito, continuei na área de TI, tanto que optei por uma formação superior nesta área. Para ser sincero sempre gostei de trabalhar com treinamento, é o que realmente me proporciona prazer.

 

            Recentemente, estava conversando com alguns colegas de trabalho sobre carreira, quando um deles comentou que esperava trabalhar com qualquer coisa, exceto acabar no mesmo banco onde o pai esteve a vida inteira. E para sua decepção, era lá que nos encontrávamos. Ele ainda argüiu que havia se esforçado muito para não acabar lá, contudo o esforço foi em vão.

 

            Chegamos à conclusão que existe uma idade da frustração. Não estamos falando daquela época em que nos frustramos constantemente, mas do momento no qual percebemos que não nos tornamos ou conquistamos quase nada do que sonháramos. Quem nunca sonhou em ser rico que atire a primeira pedra!

 

Não existe uma idade definida ou período da vida específico, ela pode chegar a qualquer momento, quando menos esperamos. Para algumas pessoas aparece mais cedo, para outras mais tarde. Às vezes é difícil diagnosticar se estamos nela, pois podemos ser surpreendidos por uma reviravolta da vida. Para a maioria chega depois dos filhos, quando as pessoas se dão conta que não tem aquela segurança financeira, estabilidade de emprego e a casa dos sonhos.

 

Acredito estar nela. Imagino isso pelo leve sentimento depressivo que sinto eventualmente quando lembro o passado e pondero sobre o futuro. Talvez esteja enganado, pode ser que eu ainda vá me frustrar muito ou talvez durante muito tempo. Embora precoce, acredito já estar na idade da frustração por ter me dado conta das reais possibilidades que tenho e pela percepção do que posso almejar e esperar do futuro. Desta forma, posso vislumbrar o que me espera. É como se existisse uma bola de cristal interior, através da qual você consegue enxergar alguns anos adiante e percebe que não será nada além do que já é.

 

Não imagino que ela seja ruim ou maléfica. Muito pelo contrário, é o balde d’água fria que precisamos em determinado momento da vida para nos fazer refletir sobre nossos atos, carreira, objetivos e realizações. Isto pode fazer com que você trace novos rumos, podendo literalmente levá-lo ao sucesso, seja ele profissional, espiritual ou material.

 

É o alerta que precisamos para nos reinventarmos, rejuvenescer nossas idéias, nos dando mais combustível para uma próxima etapa do nosso caminho.

 

      Quanto aos sonhos, eles são interessantes e devem servir como fonte de inspiração e determinação, mas não espere passar a vida inteira tendo sempre os mesmos.